O Brasil tem emprego. Mas não tem quem trabalhe
26/10/2026 · 4 min de leitura
Há um paradoxo silencioso acontecendo agora no mercado de trabalho brasileiro — e ele é mais grave do que os números oficiais sugerem.
A taxa de desemprego atingiu 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025, segundo o IBGE, a menor da série histórica.
Deveríamos comemorar, certo? Não tão rápido.
O dado que à primeira vista indica um cenário positivo esconde um desafio estrutural que se intensifica a cada trimestre: a escassez de mão de obra qualificada em setores estratégicos da economia.
O Brasil está chegando ao pleno emprego. O problema é que chegamos lá sem os profissionais que o mercado precisa.
O dado que ninguém quer ver
Um estudo do ManpowerGroup revelou que 74% das empresas no mundo têm dificuldades para encontrar funcionários qualificados.
No Brasil, esse índice é ainda mais alto: 81% das companhias relatam o mesmo problema.
Pesquisa do FGV IBRE aponta que mais de 57% das empresas dos setores de comércio, serviços, indústria e construção indicaram dificuldade em contratar ou reter colaboradores. A construção lidera com 82,4%, seguida pelo varejo ampliado com 77,3%, indústria com 76,8% e serviços com 76,5%. FGV Ibre
Não é um setor. É a economia inteira.
O paradoxo da informalidade
Apesar de o país registrar a menor taxa de desemprego desde 2012, o mercado de trabalho industrial vive um paradoxo. Elevado nível de informalidade — 38% das ocupações sem registro ou proteção social — e crescente falta de interesse da população, especialmente dos mais jovens, por relações de trabalho tradicionais. Uma pesquisa do Datafolha aponta que 59% dos brasileiros preferem ser autônomos, percentual que sobe para quase 70% entre os jovens de 16 a 24 anos. SINDRATARPE
Os profissionais existem. Eles simplesmente não estão onde as empresas procuram.
O tamanho do apagão
O Mapa do Trabalho Industrial, elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria, aponta que o país precisa qualificar aproximadamente 14 milhões de profissionais entre 2025 e 2027. Desse total, 2,2 milhões serão novos trabalhadores e 11,8 milhões exigirão requalificação. Poder360
Dados do mesmo Mapa do Trabalho Industrial indicam que três em cada cinco trabalhadores contratados em 2026 precisarão ser treinados em algum aspecto até o fim do ano, para se alinharem às novas técnicas do período. Os principais motivos para essa escassez são as falhas na educação básica no Brasil e a rápida transformação tecnológica dentro do setor. CNN Brasil
Onde está o profissional de verdade?
Para Virgilio Marques dos Santos, PhD pela Unicamp e sócio da consultoria FM2S, o país vive uma crise silenciosa de competências. O problema não é falta de pessoas, mas de profissionais com formação técnica e habilidades comportamentais alinhadas às novas exigências do mercado. Portal ABC do ABC
O profissional de fato — aquele que domina o ofício, que tem disciplina técnica, que entrega resultado — está cada vez mais raro. E cada vez mais valorizado.
Em 2018, apenas 34% das empresas brasileiras relatavam escassez de talentos.
Em 2025, esse número saltou para 81%. GCMAIS Em sete anos, o problema mais que dobrou.
O que as empresas precisam fazer agora
O diagnóstico é direto: o sucesso das empresas em 2026 dependerá menos da capacidade de contratar e mais da habilidade de manter, desenvolver e engajar seus profissionais. Em um país de pleno emprego, a gestão de pessoas deixa de ser apenas uma área de suporte e passa a ocupar posição central na estratégia de negócios. Portal ABC do ABC
Requalificar antes de recrutar. Reter antes de buscar no mercado. Desenvolver antes de perder.
Essa é a equação que as empresas que vão crescer em 2026 já entenderam.
E a sua, já entendeu?
Guilherme Ezequiel — Chief People & Strategy Officer
Chief People & Strategy Officer do Grupo DHO. Administrador, conecta estratégia, pessoas e finanças no desenho organizacional e na governança de empresas de médio porte.